Deus é um bêbado que corre nu

10.2.2015

Deus é um bêbado que corre nu! – o silêncio imperou na sala lotada. Por mais respeitado que fosse o homem, uma afirmação daquelas, partindo assim de um honroso pastor, parecia algo impensado. A poesia estaria evidente não fosse o fato da abstenção do álcool pelos evangélicos. De que forma então poderiam chamar-se de versos aquela agressão verbalizada pelo pastor?

 

A oração infame foi proferida ao final de um sermão. Leonardo, Pastor Léo, como era conhecido e admirado, respirou fundo ao concluir sua preleção. Levou à testa suas mãos suadas e entoou baixinho, mas não o suficiente para que não fosse escutado – Deus é um bêbado que corre nu. Nem ele saberia explicar o que queria dizer, mas como representante do divino, agora deveria.

 

Pensou num desfalecimento momentâneo, algo como um brancão, do qual nem mesmo os desportistas estão livres. Um breve desmaio seria a porta secreta que o levaria pra longe dos questionamentos que se seguiriam. No entanto, tal atitude poderia ser tomada por possessão, da qual nem mesmo os pastores estão isentos. Acreditou por um curto segundo que não ficaria bem tal fragilidade imposta a um homem de Deus. Errar é humano, e humano é Leo, no entanto não se julgava errado pelo dito, tampouco pelo pensado, na verdade, naquele momento não se julgava, em verdade mesmo, não fazia a menor idéia do que acontecera. Léo havia sido tomado de um lampejo de liberdade poética. Era o que lhe parecia.

 

Mas por que Deus se lhe apresentara como um bêbado? – a bebedeira representa o torpor, e por sua vez o entorpecimento exacerbado pode levar a irrazão. Do que corre nu, o que se entende, é que pouco não deve ter se embriagado. As questões cresciam sem amadurecimento. Por que Deus corria? Deus não precisa correr... bem, é certo que nem beber, ainda mais pelado. Se corria nu, era por que antes vestira algo, quais seriam as vestes de Deus?

 

O que o senhor quer dizer? Perguntou a primeira beata, daquelas que ficaria revoltada se não fosse a primeira a questionar, e que logicamente será ainda a primeira independente da resposta do pastor, a tecer sobre o acontecido interpretações das mais cabulosas aos outros fiéis.

 

Léo era jovem, tinha em seus quarenta e dois anos a figura de uns trinta e cinco de aparência. Desde criança era devoto, seu pai fora pastor na mesma igreja e todo mundo sabia que o menino era para aquilo mesmo. Sem surpresas ele sempre comandou com facilidade seu rebanho. Mas agora sua pele corada de saúde conquistada cedia lugar ao pálido rosado do susto. Mais que ninguém, Léo gostaria de saber o que ocorria ali. Deus não precisava de roupas, é o reflexo da sinceridade, vem antes da obra primeira, é o criador, não tem forma, então pra que se vestir?

 

Para Léo a corrida podia representar a busca por um objetivo, mas Deus não tem objetivo, Deus não quer nada, não tem vontade, não tem desejo, é a própria realização. Acontece que Léo sabia que sua frase não tinha sido elaborada por sua consciência, e só poderia ser coisa da divindade mesmo, de forma que o momento requeria toda a sua atenção. Era a primeira vez que se sentia realmente conectado à santidade.

 

Dos fiéis, outra pergunta cortava o ar, mas o pastor sem reação não cessava o raciocínio: Deus, como Senhor supremo, único e uno, pode se dar ao luxo de fazer o que bem entender, independente de seu querer, uma vez que Ele nada quer. Tomou um porre sem querer, só por tomar, correu por correr e ainda foi pelado, pra tirar onda! – Imaginava seu filho mais novo lhe explicando o significado da frase – o menino chamava-se Caetano, sim, por causa do compositor - o jovem cabeludo sempre fora meio à revelia às missas do pai, e quando Léo o avistou com aquele mesmo risinho cínico que as crianças que gostam de skate guardam sempre no canto da boca, não conseguiu pensar noutra coisa senão na resposta que o filho lhe daria, ali mesmo na Igreja, se fosse ele o indagado.

 

Quis rir - nunca antes quisera rir da quizila do filho. É que tomava a atitude de seu pequeno skatista como ato rebelde típico de adolescente, mas agora achava graça e queria rir. Léo não se daria este direito, afinal, após ter profanado o templo do Senhor com palavras tão agressivas, uma simples risadinha seria sua lápide, mas gargalhou em pensamento, o que de inédito já tinha tudo.

 

Não, tamanha poética não poderia ser para tirar onda! Afinal de contas, Deus não precisa disso – o problema é que esse axioma não permite nenhuma conclusão – Deus não precisa de nada – mas então por que tudo acontece? E por que dizer do tudo, que é a vontade do Divino. Agora as coisas se complicavam na veneta do pastor. O foco só podia estar errado. Ele ainda era escravo de seus dogmas. Deus queria beber, e bebeu, até se embriagar.

 

Talvez devesse interpretar com mais atenção a embriaguês divina. A sensação de torpor permite ao indivíduo a vivência duma outra realidade. Parece que aqui, o indivíduo é Deus, o que poderia nesse caso significar uma troca de papéis. Quem sabe Deus não esteja querendo encarar a carne? Quem sabe não esteja querendo simplesmente ser homem, ser indivíduo? Quem sabe, dessa vez não seja o homem quem quer se livrar de suas máscaras, mas sim a própria divindade - que passa a rejeitar a pressão de criador para se beneficiar dos privilégios da criação. O homem passa a correr nu, numa representação mista de fragilidade e liberdade. Débil o corpo se atira desenfreado ao atrito eólico na estrada do tempo. Mas o que não é a liberdade sem a fragilidade? A segurança é tentadora mas aprisiona, poda, restringe.

 

A cabeça do pastor quase albina passava a um vermelho intenso, maquinando sua nova religião. As mãos friccionavam o rosto suado denotando uma profunda imersão na própria alma. Este sentido era algo desde sempre almejado por Léo, e agora ele o alcançava sem esforço - a mão Divina o auxiliara, mas a troco de quê? De entender a morte de Deus? Se Deus se tornar o homem teremos que escrever homem como Homem e Deus como deus? Seria o homem Léo o escolhido para testemunhar o suicídio da Santidade?   

 

À medida que pensava, a Igreja ia se tornando um mar de interrogações de mão dupla – Léo não enxergava a mentira nas pessoas, via apenas o engano da ingenuidade. Mas também não enxergava a sua verdade, só via a dúvida. As perguntas pareciam infindáveis, de forma que as respostas jamais seriam suficientes. Uma verdade, no entanto, havia despertado o humor daquele ser cansado – Deus havia enfim se comunicado. Se bebeu, se correu, vestido ou não, nada importava. Agora, uma linha de raciocínio abruptamente alterada a ponto de provocar uma mudança de rumo significativa na vida de uma pessoa, isso sim era importante. Deus se fez homem para que o homem o compreendesse. O homem se desfez para que sua mente aceitasse a verdadeira divindade. Sem uma coroa somos todos reis. Agora sim, Deus poderia voltar a ser uno, e Léo poderia voltar a ser homem, pastor, ou o que quer que fosse. Mas seria, antes de qualquer coisa, simplesmente o pai feliz do skatista que sabia de tudo que ele havia esquecido.

 

A senhora o olhava aguardando uma resposta que provavelmente não entenderia. Na verdade ninguém entenderia o que o homem tinha a dizer. Deus é um bêbado que corre nu. Repetiu em pensamento a frase que mudara sua vida, com o risinho herdado do filho no canto da boca. Pleno de paz e compreensão, num instante nobre de sua existência, Léo percebeu que qualquer explicação minimizaria o aprendizado, de forma que optou pela dosagem homeopática do conhecimento nos fiéis que o seguiam, assumindo a responsabilidade de, para sempre, dure o que durar o tal sempre, permanecer injetando sua sabedoria advinda daquele fato em seus irmãos. E antes que a senhora ou qualquer outro de seu rebanho o questionasse novamente, Pastor Léo proferiu sua frase de encerramento do discurso como quem, não ouvindo as perguntas do povo, apenas repetisse o que dissera a pouco: O ateu é um frívolo que come cru. Dito isso fechou a bíblia, deu boa noite com o auge de sua simpatia, olhou para seu querido filho e sorriu.    

 

 

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